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Biodinâmica fruto do cosmos ou da ciência?

Biodinâmica fruto do cosmos ou da ciência?

Poções mágicas com esterco de animais, alinhamento com os cosmos e forças do universo e outros conceitos místicos que podem parecer mais com bruxaria do que viticultura propriamente… esse texto é sobre a filosofia biodinâmica, usada por gigantes do vinho como Domaine de La Romanée-Conti. Leia mais e tire suas conclusões entre acreditar ou não na magia - ainda - intangível dessa cultura.

A biodiversidade, saúde do solo e sustentabilidade também são mantras práticados com disciplina no cultivo biodinâmico assim como orgânico, igualmente como a exclusão de herbicidas, inseticidas, fertilizantes e outros químicos no vinhedo (enxofre e cobre continuam permitidos). Porém, outros elementos bastante excêntricos são explorados: a influência das forças dos cosmos, estrelas e posição lunar em todas as etapas da produção dos vinhos, assim como o uso de uma abordagem homeopática das preparações e tratamentos dos vinhedos. Essa vertente de agricultura prioriza a vida em um eco-sistema completo, de preferência auto sustentável em todos os âmbitos, e com a forte crença de que tudo que acontece na terra está conectado ao universo.

A história indica que seu início teve com o filósofo austríaco Rudolf Steiner (1861-1925) no final do século XIX e disseminada através de uma série de palestras criadas por ele delineando uma ciência espiritual que influenciaria o mundo nas próximas décadas, a partir de sua primeira publicação em 1924. Logo, Erhard Bartsch cria o Demeter (1928), órgão que regula a cultura biodinâmica (além do vinho) ao redor do mundo e hoje já é presente em mais de 50 países. O período era complicadíssimo na europa e a pobreza se alastrava pelo mundo, as empresas que promoviam químicos tinham tudo ao seu favor já que ofereciam formas mais eficazes e baratas de cultivar a terra. Foi um momento oportuno em que herbicidas, inseticidas, fungicidas se alastraram pelos vinhedos ao redor da Europa. Ao passar dos anos, o impacto devastador dessas aplicações químicas se torna evidente, e podemos traduzir o dramático período na imponente frase de Claude & Lydie Bourguignon que relata nos anos 90 alguns solos da Borgonha terem menos vida que o deserto do Sahara.

Acredita-se que a viticultura biodinâmica teve início com François Bouchet, porém muitas décadas depois que as palestras de Steiner se popularizaram em outras área de cultivo. E foi nos anos 80 que a influência de Bouchet ganhou força ao ajudar nomes de peso na Borgonha como Domaine Leflaive em Puligny-Montrachet, Domaine Leroy em Vosne-Romanée, e também fora dela com Chapoutier em Hermitage e Huet em Vouvray.

Além desses produtores, hoje icônicos, outros nomes se destacaram ao longo da história seja pela qualidade dos seus vinhos, influência na região de origem ou fortes opiniões e vale destacá-los - sem nenhuma ordem específica mas todos de extrema importância - e são eles: família Saahs (Nikolaihof), Nicolas Joly, Jean-Claude Rateau, Emmanuel Giboulot, Alselme Selosse, Claude & Lydie Bourguignon.

UNIVERSO:
A posição lunar e dos planetas estabelece a profunda conexão entre as fontes de energia terrestre e as celestiais, o que dita o ritmo do trabalho nos vinhedos e que muitas vezes se alonga à adega.

Os quatro elementos básicos da vida são: terra, água, ar e fogo. Consecutivamente, circula a crença de que esses quatro elementos estão diretamente ligados aos tipos de plantas que existem, sejam elas estruturadas em suas raizes, como a cenoura; ou suas folhas, como o alface; por sua flor; ou pela fruta, como as vinhas. Essa é uma das premissas que guiam o calendário biodinâmico, criado em 1963 por Maria Thun para complementar os ensinamentos de Steiner, em que a posição lunar indicará qual é a maior influência nesses aspectos naquele momento. Por exemplo, trabalhar o solo quando a lua está em frente a uma constelação de terra ou raiz, como Virgem ou Capricórnio, promove enraizamentos mais profundos; fazer a trasfega de vinhos quando a lua está mais perto da terra cria vinhos turvos. É esse tipo de movimento que dá ritmo na biodinâmica.

VIDA:
A palavra vida é muito importante na biodinâmica. E solos de vitalidade e vinhedos ricos em biodiversidade enaltecem a absorção de forças e energias dos cosmos, que são intrinsecamente ligados à vida. Portanto, se não há vida nos vinhedos, não exista a tal influência. E quanto mais vida, mais importante o calendário de Thun se torna.

HOMEOPATIA:
Além de todos esses conceitos esotéricos, possivelmente o maior diferencial da viticultura biodinâmica em relação à orgânica é o uso de preparações especiais, nove ao total, incluindo: esterco de vaca, quartzo mineral (silica) e plantas medicinais (valeriana, camomila, urtiga, casca de carvalho…). As duas principais aplicações são as de origem animal e mineral, conhecidas por 500 e 501. Junto da 508, são as únicas aplicadas diretamente à terra por spray. Enquanto o esterco no chifre (500) influencia a parte inferior da videira e suas raízes, a sílica (501) influencia sua parte superior, ou seja, seus brotos, folhas e frutos. Ao perguntar a um amigo Australiano, Lubiana pioneiro na biodinâmica no país, o porque do uso do chifre e do processo de enterrá-lo durante o inverno, Lubiana responde: “um chifre (mesmo material dos unhas do dedo) é enterrado durante o inverno para se desenvolver e passar por uma pontente transformação. A sua porosidade é perfeita para promover o ingresso de fungos e bactérias que irão fermentar esse esterco. E o formato canaliza as forças cósmicas, resultando em uma densa propagação de forças vitais e organismos vivos que serão transferidos aos solos". Tudo que é fermentado é mesmo especial, não é?

Essas preparações sim são obrigatórias. Mas além disso, os produtores também são incentivados a incorporar animais e a biodiversidade em suas terras e minimizar a dependência de insumos externos. Leia bem, incentivados, pois não são práticas mandatórias e até mesmo os compostos podem ser comprados fora.

ADEGA:
Se uma vinícola possuí o certificado do Demeter significa que os os vinhos produzidos na adega também são biodinâmicos?

Não necessariamente. Assume-se que aqueles que usam da filosofia estendem suas práticas dos vinhedos às suas adegas. Porém, a história muitas vezes não é essa.

Encontramos alguns certificações ao redor do mundo, mas o quão efetivas e transparentes elas são já se torna mais complicado dizer. Pegue como exemplo os produtores certificados do Demeter, em que as regras ainda são bem soltas.

Abaixo, algumas das diretrizes criadas em 2008 (usei a atualização de 2021) para “vinho biodinâmico” pelo Demeter internacional que permitem uma grande quantidade de invervenções, como:

  • Chaptalização até 1,5% abv

  • Adição de água para dissolver o mosto

  • Uso de levedura comercial (somente livre de GMO) permitido somente em caso de fermentação travada

  • Inoculação de bactérias ácidas lácticas

  • SO2 com máximas de 180 mg/l para brancos, rosés e espumantes e 360 mg/l para vinhos doces

  • Agentes refinadores derivados de animais, como clara de ovo, produtos lácteos; caseína, celulose, têxtil, terra de diatomáceas ou filtração bentonita… portanto, não é vegano, caso não indique o contrário

  • Acidificação com ácido tartárico, carbonato de potássio

Fonte: https://www.demeter.net/sites/default/files/20201204_bfdi_standard_for2021_final_sc.pdf

Para quem leu o Authentic Wine de Jamie Goode, o cientista doutor que é apaixonado por vinhos de baixa intervenção cita todas essas flexibilidades na adega mas não fica bem clara a diferenciação das diretrizes do Demeter internacional e suas duas vertentes na tabela que consta no livro: “aim” e o “standard”. Então, fui atrás de esclarecimentos e contatei o Demeter europeu. Me explicaram que o “aim” é objetivo no seu sentido literal, não se trata de uma categoria distinta da “standard” (padrão). O que significa que dois produtores com o mesmo certificado de vinho biodinâmico podem estar nos dois extremos da intervenção. Exemplo: um sem adição de sulfitos, filtragem ou colagem; e outro que abusa do permitido, seja da aplicação de sulfitos que se extende bastante até 180 mg/l para vinhos brancos, ou inoculando sua fermentação e a maloláctica, acidificando e por ai vai.

Resumindo, quem trabalha no limite dessas indicações está muito mais perto de um intervencionista do que um pouco ou não intervencionista. Trata-se de limites não muito diferentes do que muitas das vinícolas taxadas como “convencionais” utilizam. Então do que adianta todo naturalismo nos vinhedos quando se joga tudo pelo ralo dentro da adega? Se você se importa com todo esse manipular, adicionar, retirar, filtrar, descaracterizar, nos seus vinhos, é melhor ficar de olho e procurar entender mais sobre a realidade por trás da produção. Nas palavras de um grande amigo vigneron biodinâmico: “criou-se um lobby”. Só para constar, o Demeter cobra uma taxa - que me parece bem gorda - de até “1,6% do valor do faturamento de produtos Demeter/biodinâmica”, como consta no site oficial do órgão.

Portanto, procure sempre saber mais sobre a realidade por trás dos produtores que lhe interessam. Na 011, conhecemos de perto as verdadeiras práticas de todos e sabemos que “mínima intervenção” realmente significa o que indica.

Além do Demeter, na Europa, também existe o Biodyvin, liderado pelo Master of Wine Olivier Humbrecht (Zind Humbrecht), e também respekt-BIODYN, na Austria.

VANTAGENS:
A ciência não conseguiu até o presente momento provar a eficiência da biodinâmica com precisão mas lançou estudos sinalizando a melhoria da qualidade do solo através da saúde e da vida, assim como a diminuição de rendimentos na produção de uvas. O trabalho na terra também promove raízes mais longas, menor compactação dos solos e também menor risco de erosão. Embora isso não seja diferente da viticultura orgânica, dependendo de como é trabalhada. Alguns vignerons também defendem que as preparações biodinâmicas ajudam a diminuir o pH final dos vinhos, assim aumentado a acidez - o caso de Emidio Pepe.

Se funciona, Anne-Claude Leflaive do Domaine Leflaive, garante que sim. E quem so eu para duvidar da rainha dos vinhos brancos. Anne-Claude foi uma das primeiras produtoras na Borgonha a adotar a filosofia após provar na prática seus benefícios quando conduziu testes em uma parcela do grand cru Bienvenues-Bâtard-Montrachet que já estava entrega ao tempo e viu com seus próprios olhos suas vinhas não apenas reviverem mas darem vinhos ainda mais impressionantes. Os testes de Anne-Claude duraram quase uma década e eram levados muito à sério: as parcelas eram divididas entre biodinâmicas e orgânicas, vinificadas separadamente e enfim provadas às cegas. O resultado positivo, para ela e alguns críticos que acompanharam a evolução dos vinhos, foi clara e até hoje o domaine continua biodinâmico.

Um estudo conduzido durante 6 anos pela University of Adelaide, com financiamento da indústria, em McLaren Vale no sul da Austrália investigou mudanças da saúde do solo, na produção de frutas e na qualidade dos vinhos. A pesquisa concluiu que o cultivo orgânico e biodinâmico resultaram realmente na melhoria da qualidade do solo, com muito mais vida, e também nos vinhos.

Fonte: The relative sustainability of organic, biodynamic and conventional viticulture. AGWA Final Report 2015.

Por outro lado, diversos estudos apontam que não existe evidências de que as preparações biodinâmicas realmente são efetivas devido as ínfimas quantidades que os compostos são aplicados. Além de tudo, as nove aplicações e cuidados extras aumentam os custos, obviamente, mas também o impacto ecológico devido a maior demanda de suporte de máquinas para suas aplicações (acredito que o estudo refira-se somente a produtores de maior escala, tendo em conta que muito dos pequenos tampouco possuem tratores ou os evitam para não compactar seus solos).

Fonte: The Science Behind Biodynamic Preparations: A Literature Review Linda Chalker-Scott

Jasper Morris MW, especialista na Borgonha, atesta que ao longo dos anos de sua vasta experiência degustando vinhos da região e de produtores que se tornaram biodinâmicos, esses vinhos se mostraram mais puros e mais minerais do que antes. Se isto se deve a atenção e cuidado nos vinhedos ou ao alinhamento com os ciclos lunares, talvez nunca descubramos. Mas se toda vez que tomamos uma garrafa de vinho de cultivo biodinâmico sentimos intensamente a vida e emoção que eles transmitem, qual é o problema em acreditar?

E fica aqui uma pergunta sincera: você acredita? Eu sim. Mas eu vim de uma família muito diferente que me ensinou o lado holístico da vida ainda cedo, assim como acreditar no que talvez a ciência ainda esteja limitada a provar, e acima de tudo preservar a natureza na forma pura que ela nos foi entregue um dia. Além do mais, alguns dos vinhos da minha vida eram de produtores biodinâmicos: Domaine de La Romanée-Conti, Domaine Leflaive, Domaine Dujac, Selosse, Emmanuel Giboulot, Giaconda, Jean-Louis Trapet…

Finalizo com esse parágrafo extraído do site de um produtor biodinâmico de Oregon, nos Estados Unidos, que resume com atitude e sabedoria o que tudo isso (seja lá o que for mas que existe) significa em uma interessante visão da vida, que parece priorizar muitas vezes a intenção e a intuição mais do que a razão.

“I'll tell you the real bullshit. It’s farming with chemicals that destroy the environment and cause cancer. It’s making boring industrial wine. If a little voodoo will save the planet, count me in. Voodoo is just what people call something they don’t understand.” Troon Vineyard

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